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Queria que minha filha aprendesse a seguir Jesus. A primeira a precisar mudar fui eu.

Foto do escritor: Priscila Tavares
Priscila Tavares
8 de out.
7 min de leitura

Passei alguns bons anos sem frequentar a Igreja Católica. Para o desespero da minha mãe, que poderia ter economizado algumas preocupações se eu tivesse chegado às conclusões deste texto mais cedo. Mas aparentemente eu precisava ter uma filha para começar a entender certas coisas. Inclusive a minha mãe.😂


A fé estava nas minhas raízes, plantada na infância. Por vários motivos, acabou ficando distante da minha vida. Achei que voltar seria difícil, que talvez eu já não soubesse muito bem como estar ali. Depois do casamento e da maternidade, porém, o retorno aconteceu com uma naturalidade que me surpreendeu. Foi como entrar em uma casa conhecida depois de anos fora. Eu ainda sabia o endereço.





Ter a PenPen trouxe perguntas que antes nem passavam pela minha cabeça. Como ensinar uma criança a reconhecer o bem? O que sustenta uma pessoa quando a vida foge dos planos? A quem recorrer quando o amor é imenso e a capacidade de proteger é tão pequena? Eu tinha me tornado mãe e descoberto que amar alguém daquele jeito não me dava nenhum controle sobre o futuro dela. Uma informação que deveria vir em destaque antes do parto.🤭


E quem me conhece sabe que gosto de organizar, antecipar e saber o que vai acontecer. Sou neurótica. Perdão, colérica. Então chegou uma pessoa inteira, com vontade própria e nenhuma obrigação de corresponder ao planejamento que eu havia feito. Posso cuidar da PenPen com toda a dedicação do mundo. Ainda assim, haverá coisas que não vou conseguir prever, evitar ou resolver. Foi também diante desse limite que voltei a procurar Deus.


Queria que a fé fizesse parte da vida da minha filha desde o início. Só que esse desejo começou a exigir alguma coerência da minha parte. Como ensinar a confiar em Deus se eu só o procurava depois que minhas soluções davam errado? Como apresentar a ela uma relação que eu mesma mantinha à distância? Eu precisava voltar a viver aquilo que queria transmitir. E voltei de cabeça.


No começo, ir à missa aos domingos já era um passo importante. Aos poucos, percebi que o assunto continuava na segunda-feira. A fé começou a pesar nas minhas escolhas, nas minhas reações e nas justificativas bastante criativas que eu tinha para os meus defeitos. Algumas certezas ficaram mais firmes e minha defesa ficou mais difícil.


Amar o próximo, por exemplo, sempre me pareceu uma excelente ideia. O problema é quando o próximo resolve participar.🫠 Quando me irrita, me contraria ou exige uma paciência que eu já perdi. Ou nem cheguei a ter. É aí que aparece a distância entre concordar com Jesus e fazer o que Ele ensina. Concordar, sentada e sem ninguém me contrariando, eu consigo muito bem.


Porém, com uma filha pequena, as oportunidades de praticar são abundantes. Quero ensinar paciência, generosidade e autocontrole. Preciso, então, prestar atenção ao meu tom de voz quando estou cansada, à minha reação quando sou interrompida, ao que faço quando alguma coisa sai do previsto (Deus sabe que eu amo uma rotina). Eu sei que ela ainda não entende tudo o que eu poderia explicar sobre a fé. Mas já observa o que acontece comigo quando alguém atrapalha os meus planos. Material não falta. 😂


Isso me obriga a olhar com mais honestidade para os meus erros. Sou muito boa em apresentar as circunstâncias: dormi mal, estava preocupada, tinha muita coisa para fazer. Tudo perfeitamente possível. Ainda assim, entender por que agi mal não me dispensa de pedir perdão e tentar fazer diferente. O cansaço explica muita coisa, mas eu estava começando a dar a ele atribuições demais.


Na maternidade, é preciso aprender a distinguir as coisas. Há momentos em que preciso me arrepender e outros em que preciso dormir. Às vezes, os dois. Estar cansada não é pecado. Precisar de ajuda também não. Já a maneira como trato as pessoas quando estou no meu limite merece atenção. Elas não têm culpa de eu ter chegado até ali.

Foi nesse esforço de melhorar que comecei a conhecer mais de perto meus besties, os santos. Antes, pareciam figuras quase mitológicas, muito distantes de nós, reles mortais tentando terminar o dia sem perder a compostura. Ler sobre suas vidas mudou essa impressão. Havia trabalho, perdas, preocupações, temperamentos difíceis. Também havia alegria e bom humor. Gostei de saber. Eu já imaginava que a santidade exigiria bastante de mim e temia que exigisse também a perda da personalidade. O que não é o caso.


Comecei a pedir a intercessão deles e a encontrar em suas histórias ajuda para situações muito concretas. A santidade foi deixando de parecer algo que acontecia apenas em lugares distantes, com pessoas extraordinárias. Havia trabalho suficiente dentro da minha casa.


Fiz uma lista de amigos que estão comigo todos os dias, todas as horas.


Santa Mônica me ajuda a aceitar que minha filha tem vontade própria. PenPen ainda é pequena, mas já apresentou provas suficientes. A perseverança de Mônica na oração por Santo Agostinho me lembra de continuar confiando mesmo quando não posso resolver alguma coisa por ela. Penso nessa santa quando gostaria que a confiança em Deus viesse acompanhada de um prazo e, de preferência, uma garantia por escrito. Tenho consciência de que isso dificulta um pouco a parte da confiança.🤭


Santa Teresinha, ou “Santa Tesinha”, segundo a PenPen, me ensina a enxergar valor nas pequenas coisas. Sua pequena via me faz pensar na atenção que dou à minha filha, numa resposta mais paciente, no cuidado com aquilo que amanhã precisará ser feito outra vez. Gosto de ver resultados, de concluir tarefas. A maternidade tem uma opinião diferente sobre o conceito de “concluído”. Teresinha me ajuda a perceber o amor que posso colocar ali, mesmo quando, poucas horas depois, parece que não fiz nada.


Santa Zélie Martin, mãe de Teresinha, me aproxima da fé vivida em meio às responsabilidades. Ela criou as filhas e administrou um negócio de rendas. Penso nela quando tento conciliar maternidade, casamento e projetos sem abandonar o essencial. Sua história me lembra de que Deus precisa ter espaço na rotina que eu tenho hoje. Se eu esperar acabar todas as pendências para rezar, nosso próximo encontro vai demorar.


Santa Teresa d’Ávila me ajuda a compreender a oração como uma amizade com Deus. Uma amizade pede convivência, escuta e presença também quando nada deu errado. Para alguém cuja cabeça está sempre ocupada com a próxima coisa a resolver, isso exige esforço. Posso começar a rezar com a inquietação que tenho, com as distrações que preciso aprender a vencer. Se a condição fosse perfeitamente serena, eu nunca começaria.


Santa Gianna Beretta Molla me faz pensar na pessoa que continuo sendo depois da maternidade. Ela era médica, casada e mãe. Gostava de música, pintura e passeios nas montanhas. Conhecer esses detalhes me aproximou dela. Minhas prioridades mudaram muito, mas continuo gostando de escrever, cultivar interesses e ter ideias. Sua vida me ajuda a pensar no lugar de cada coisa, com responsabilidade pela minha família e gratidão pelos dons que recebi. Também preciso cuidar do que faço com eles.


São Francisco de Sales toca num assunto delicado: minha impaciência, inclusive comigo mesma. Ele ensinava a reconhecer as próprias faltas sem aquela irritação amarga contra si. Conheço bem o mecanismo: perco a paciência e depois fico irritada porque perdi a paciência. Consigo falhar duas vezes sem nem mudar de assunto. Seu exemplo me ajuda a admitir o erro e recomeçar com mais humildade. Eu gostaria de corrigir todos os meus defeitos rapidamente. Até para melhorar quero impor um prazo.😂


Ele também me ajuda com a paciência que devo aos outros. Sua mansidão me lembra de que posso corrigir sem ferir e discordar sem desprezar. Penso nele quando alguém me contraria e uma resposta excelente aparece na minha cabeça. Excelente para vencer a discussão. Para o exame de consciência, nem tanto. Tenho procurado aprender que nem toda irritação precisa virar uma bola de neve.


São João Bosco me faz olhar para a maneira como a Penélope recebe o que tento ensinar. Ele insistia em que os jovens soubessem que eram amados. Será que minha filha consegue perceber meu amor também quando preciso corrigi-la? Quero ensinar limites, respeito e responsabilidade, e preciso cuidar da forma como faço isso. Ela está aprendendo e vai precisar ouvir a mesma coisa muitas vezes. O fato de eu já ter explicado não significa que ela já tenha aprendido. Basta pensar em quantas vezes eu mesma preciso ouvir certas coisas.


Foi assim que a santidade começou a parecer mais próxima. Exigente, sim, mas presente na maneira como trato meu marido, educo minha filha, cumpro minhas responsabilidades e reajo quando sou contrariada. Comecei querendo oferecer à Penélope uma formação católica e descobri que a minha precisava de um certo aprimoramento. 


Quero ajudar PenPen a ser santa. Não significa que já reservei uma vaga no convento. Apesar de que se um dia ela tiver vocação para o Carmelo, quem sou eu para impedir? 😂 Por enquanto, temos questões mais imediatas de paciência e obediência. Algumas são minhas, e seria bom resolvê-las antes de cobrar tanta eficiência dela.


Quero que a PenPen conheça Jesus e veja em mim alguém que procura viver o que ensina. Vou falhar, e ela vai notar. Espero que também me veja pedir perdão, corrigir uma atitude e tentar de novo. “Faça o que eu digo, não faça o que eu faço” seria conveniente, mas tenho a impressão de que ela descobriria a fraude muito cedo.


Voltar à Igreja foi uma das melhores coisas que me aconteceu. Reconheci um chamado e aceitei. Desde então, tenho descoberto o quanto ainda preciso aprender, inclusive sobre assuntos que imaginava conhecer. Os livros se multiplicaram. As perguntas também. A maternidade me trouxe de volta e continua me dando motivos para permanecer.


Se posso deixar um conselho, é este: cuide do seu trabalho, crie e eduque seus filhos, sirva à sua família. Sim, sirva. Há amor e dignidade nisso. E, antes de alguém se indignar com o verbo, ele também se aplica aos maridos. Procure reclamar menos, estabeleça pequenos propósitos, vá à missa, reze, conheça os santos. Vá malhar, beba água, coma direito. Somos feitos de corpo e alma. Convém não abandonar nenhum dos dois.


E entregue a Deus o que não está em suas mãos. Continuo aprendendo essa parte, porque minha tendência é entregar e permanecer supervisionando. 😬 Aos poucos, vou entendendo que preciso dar alguns passos sem conhecer o caminho inteiro.


Uma dica (acima foi um conselho): é preciso aceitar que rezar por uma vida diferente exige disposição para rever suas escolhas. Não adianta pedir a Deus um caminho novo e insistir, com absoluta convicção, em seguir na direção de sempre. A conversão inclui abandonar coisas às quais nos apegamos e que não nos levam a lugar algum. 


Talvez você também esteja há algum tempo pensando em voltar. Considere este texto o sinal de que o próximo domingo pode ser um começo. Não feche os olhos para o chamado. Não é preciso esperar a vida inteira entrar em ordem para ir à missa. Se fosse, eu ainda não teria voltado. 🙃


E lembrem-se: contrariamente ao que dizem, a religião não é o ópio do povo. Ela é a consciência de que há um bem acima da nossa vontade. 

E essa é uma ideia bastante inconveniente para quem quer ser a própria medida de todas as coisas.😉


 
 
 

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